'/> ·ï¡÷¡ï· V I D A Humana·ï¡÷¡ï·: A guardiã das flores.

dezembro 30, 2008

A guardiã das flores.

Excerto do livro "Maomé".

Tão despercebido quanto possível, acompanhado apenas por dois fiéis criados, ele empreendeu a viagem. Em primeiro lugar queria ir para Yatrib, ao norte de Meca. Constava que era a maior cidade mercantil de toda a Arábia. Dizia-se que de todos os lados afluíam em determinadas épocas os comerciantes, para ali fazerem as suas compras e vendas. Isso o atraía.

Chegou em uma hora propícia. Animado movimento enchia os vastos pavilhões que a administração da cidade havia construído para esse fim, e que apenas três vezes por ano abriam suas portas para as reuniões dos comerciantes. Usando trajes simples, imiscuiu-se entre os presentes, após ter sido obrigado a identificar-se na entrada do portal.

O quadro colorido que se apresentou aos seus olhos prendeu a sua atenção de tal maneira, que quase se esqueceu da finalidade da sua vinda. Mas então o comércio e as ofertas, os leilões e regateios estimularam-no. Acompanhou a disputa e fechou compras favoráveis. As mercadorias adquiridas tratou de despachar cuidadosamente pelos seus criados.

Apesar de já ter chegado, a bem dizer, ao término dos seus negócios, teve vontade de ficar até que fosse anunciado o encerramento da feira. Alguns dos comerciantes mais idosos contaram-lhe dos festejos que constituíam o encerramento e animaram-no a tomar parte nos mesmos.

Na última noite ele encontrou no pavilhão mesas cobertas, e o piso forrado com esteiras grossas. Os homens sentaram-se ao redor, e uma refeição farta foi servida. Durante a refeição foi oferecido suco de uva fermentado, que Maomé saboreou. Porém, após os primeiros goles sentiu o efeito embriagante e não tomou mais nenhum trago. Os outros todos beberam; todavia, alguns deles impuseram-se uma moderação prudente.

Quando terminou o Jantar, na hora do cafezinho, todos os presentes olhavam com expectativa para Maomé. Este não compreendeu o porquê disso, porém resolveu não perguntar, e sim, aguardar até que eles mesmos lhe dissessem. Finalmente, tiveram de dignar-se a isso, pois queriam vê-lo falar.

- Escuta, amigo, dirigiu-se para ele um dos mais velhos comerciantes. És o mais novo do nosso círculo. É costume tradicional que sempre o mais novo tem de contar alguma coisa. Pode ser algo inventado ou experimentado em vivência, só não deve ser algo que já tenha lido!

- Por que não me disseram isso antes? Perguntou Maomé, admirado. Assim eu podia ter imaginado alguma coisa.

- O melhor deste costume é justamente o fato de que o contista nada sabe disso, foi-lhe respondido. A surpresa da vítima é muito engraçada, e às vezes, por causa disso, escutam-se estórias incríveis.

Compreendeu claramente que não escaparia à obrigação de ter de contar algo. Mas o que devia dizer a esses homens que em parte já não estavam mais com o juízo claro. Enquanto assim meditava, alguns disseram:

- Conta de mulheres, pois isso é o melhor!

- De mulheres devo contar? Perguntou Maomé, dando ênfase à palavra mulheres.

Alguns dos homens mais idosos ficaram embaraçados. Maomé então concentrou todas as forças da sua alma e pediu ajuda. Então um quadro vivo se revelou para ele, e outra vez um e mais um terceiro. Tão rápido como surgiram diante da sua alma, assim instantaneamente os mesmos lhe desvendaram o que devia dizer.

Preparando-se, pegou uma rosa que estava sobre a mesa, e começou:

- Quando este mundo foi criado, era então perfeito como tudo o que saiu das mãos do Criador.

Um brado interrompeu-o:

És cristão ou judeu?

- Sou um ser humano! Foi à réplica de Maomé. Deixai-me contar.

Tudo no mundo era ordenado da melhor maneira. Montanhas elevavam-se entremeadas por verdes e férteis vales. Rios levavam suas ondas para o mar e serviam para moradia dos peixes. Árvores balançavam seus galhos à luz dos raios solares e pássaros cantavam entre as folhas, onde os frutos amadureciam. E os homens que habitavam esta Terra, alegravam-se muito. Pescavam, caçavam, tratavam dos animais e colhiam frutas.

Pelos céus percorria a Rainha do Amor Divino e olhava para a Terra cá embaixo. Também ela se alegrava de como tudo fora disposto tão ordenadamente. Nisso sentiu que faltava algo. Olhou e meditou. De repente o sabia: faltava a beleza! Aliás, beleza havia em tudo o que, recém-criado, pairava embaixo, porém a beleza dos jardins celestes era diferente.

E a Rainha do Amor pegou uma das rosas vermelhas que floresciam em volta dela e deixou-a baixar à Terra lentamente. Como os homens ficaram admirados, quando viram chegar à Terra essa maravilha de beleza, de cor e de aroma! Suas almas começaram a recordar-se de algo que outrora puderam contemplar. “Rosa celeste” denominaram a graciosa flor, cuidaram e trataram dela, de sorte que o seu cálice produziu semente, embora ela fosse cortada. E onde a semente era plantada, ali floresciam rosas que espalhavam seu perfume.

Num gesto involuntário Maomé levantou levemente a flor vermelha que segurava na mão.

Como que fascinados, os homens escutavam. Isso era um conto maravilhoso.

Ninguém mais queria interrompê-Io.

Então continuou:

- Dos jardins celestes, porém, a encantadora Rainha do Amor olhava e regozijava- se com o quanto de belo a sua dádiva levara à Terra. Então aproximou-se dela uma outra sublime figura feminina, a alva Rainha da Pureza. E o Amor mostrou a ela o que havia criado e pediu-lhe que também mandasse para baixo uma das suas prodigiosas flores brancas. Nesse momento a Pureza disse:

“Minhas flores não servem nas mãos dos homens. Se eu as mandar à Terra, então precisamos pedir ao Criador que Ele desperte guardiãs, tão graciosas e puras, como as alvas flores”.

E elas foram ao Criador e pediram. Ele anuiu ao pedido e criou a mulher!

Foi criada graciosa e pura; das alturas celestiais ela veio outrora para a Terra, afim de servir de guardiã à pureza. Quem fala levianamente dela, quem não a valoriza, destrói a alva flor da Rainha da Pureza!

Com voz comovida, e, contudo sério, ele terminou. Como que cativados, os homens permaneceram sentados.

Ninguém ousou dizer uma palavra sequer. Parecia que meditavam sobre quantas flores prodigiosas já haviam destroçado.

Maomé levantou-se e deixou o pavilhão com uma cordial saudação de despedida. Depois que saiu, irrompeu uma agitação. Alguns perguntaram:

- O que ele quis dizer com a narrativa? Não devemos mais nos divertir com as mulheres?

Os outros, por sua vez, exclamaram:

- Foi maravilhoso! Quem é o jovem? Então um ancião de cabelos brancos levantou-se e disse:

- Vamos para casa afim de meditarmos sobre o que acabamos de ouvir. Podemos desfrutar alegrias com as mulheres, enquanto as considerarmos com pureza! Alegremo-nos também com as flores, sem desfolhá-las.

Então todos saíram, e muitos deles tiraram proveito disso para a vida inteira. 

...

Maomé.
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http://www.4shared.com/file/81427859/5256a6e2/O_Livro_de_Maome.html

Um comentário:

Maria José Speglich disse...

Lindo texto!

E você porque não pareceu mais em meu blog??

Beijo carinhoso!