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julho 04, 2006

Coisas mais Reais... 2

Muito do que rotineiramente nos
envolve, por uma espécie de mecanicismo na recepção, não é percebido
conscientemente. Como dito anteriormente: "
É preciso atenção no olhar, vontade
de descobrir, procurar e averiguar os detalhes
."


Com o intuito de
contribuir à mais profundas reflexões, transcrevo alguns textos.

A Origem da Desigualdade Entre os Homens
Jean Jacques Rousseau.
Nota 9 - página 91. Editora Escala.
Todos os grifos são meus.


Um célebre autor, calculando os bens e os males da vida humana e comparando as duas somas, achou que a última ultrapassava em muito a primeira e que, tomando o todo, a vida era para o homem um péssimo presente. Não fiquei surpreso com sua conclusão. Ele tirou todos os seus arrazoados da constituição do homem civilizado. Se tivesse remontado até o homem natural, pode-se pensar que teria encontrado resultados bens diferentes, porque haveria de perceber que o homem só tem os males que criou para si mesmo, fazendo com isso justiça à natureza. Não foi fácil chegarmos a ser tão infelizes. Quando, de um lado, consideramos o imenso trabalho dos homens, tantas ciências profundas, tantas artes inventadas, tantas forças empregadas, abismos aterrados, montanhas arrasadas, rochedos quebrados, rios tornados navegáveis, terras desmatadas, lagos formados, pantanais saneados, construções enormes erguidas do chão, o mar de navios e marinheiros e quando, olhando do outro lado, procuramos, meditando um pouco as verdadeiras vantagens que resultaram de tudo isso para a felicidade da espécie humana, só podemos nos impressionar com a espantosa desproporção que reina entre essas coisas e deplora a cegueira do homem, que, para nutrir seu orgulho louco e não sei que vã admiração de si mesmo, o faz correr ardorosamente atrás de todas as misérias de que é suscetível e que a benfazeja natureza havia tomado o cuidado de afastar dele.

Os homens são maus, uma triste e contínua experiência dispensa a prova; entretanto, o homem é naturalmente bom, creio havê-lo demonstrado. Que será, pois, que o pode ter depravado a esse ponto, senão as mudanças sobrevindas em sua constituição, os progressos que fez e os conhecimentos que adquiriu? Que se admire tanto quanto queira a sociedade humana, não será menos verdade que ela conduz necessariamente os homens a se odiar mutuamente à proporção do crescimento de seus interesses, a se retribuir uns aos outros serviços aparentes e a se dispensar efetivamente todos os males imagináveis. Que se pode pensar de um comércio em que a razão de cada particular lhe dita máximas diretamente contrárias àquelas que a razão pública prega ao corpo da sociedade e em que cada um tira seus lucros da desgraça do outro? Não há talvez um homem abastado ao qual seus herdeiros ávidos e muitas vezes seus próprios filhos não desejem a morte secretamente. Não há um navio no mar, cujo naufrágio não constituísse uma boa notícia para algum negociante; uma só casa que um devedor de má fé não quisesse ver queimada com todos os documentos que contém; um só povo que não se regozijasse com os desastres dos vizinhos. É assim que tiramos vantagens do prejuízo de nossos semelhantes e que a perda de um faz quase sempre a prosperidade do outro.

O que há de mais perigoso ainda, porém, é que as calamidades públicas são a expectativa e a esperança de uma multidão de particulares: uns querem doenças, outros a mortalidade, outros a guerra, outros a fome. Vi homens horrorizados chorando de dor ante as aparências de um ano fértil; e o grande e funesto incêncio de Londres, que custou a vida e os bens a tantos infelizes, fez a fortuna de mais de dez mil pessoas. Sei que Montaigne lastima o ateniense Dêmades por ter feito punir um operário que, vendendo muito caro os caixões, ganhava muito com a morte dos cidadãos, mas, sendo a razão que Montaigne alega a de que seria preciso punir todo o mundo, é evidente que confirma as minhas. Que se penetre, pois, através de nossas frívolas demonstrações de benevolência, no que se passa no fundo dos corações e que se reflita no que deve ser um estado de coisas em que todos os homens são forçados a se acariciar e a se destruir mutuamente, e em que surgem inimigos por dever e velhacos por interesse. Se me respondem que a sociedade é assim constituída, que cada homem ganha em servir aos outros, replicarei que estaria muito bem se não ganhasse ainda mais para prejudicá-lo. Não há proveito tão legítimo que não seja ultrapassado pelo que se pode fazer de modo ilegítimo e o mal feito ao próximo é sempre mais lucrativo que os serviços. Não se trata, pois, senão de achar os meios de assegurar a impunidade e é para isso que os poderosos empregam todas as suas forças e os fracos, todas as suas artimanhas.

O homem selvagem, quando acabou de comer, está em paz com toda a natureza e é amigo de todos os seus semelhantes. Se algumas vezes tem de disputar seu alimento, não chega nunca às vias de fato, sem ter antes analisado a dificuldade de vencer com a de encontrar noutro lugar sua subsistência e, como o orgulho não se mistura ao combate, ele termina por trocar alguns socos. O vencedor come e o vencido vai em busca da sorte em outro lugar e tudo fica em paz. Mas no homem que vive em sociedade, as coisas são bem diferentes. Trata-se primeiramente de prover o necessário e depois, o supérfluo. Em seguida, vêm as delícias, depois as imensas riquezas e depois súditos e ainda escravos. Não há um momento de descanso. O que há de mais singular é que, quanto menos as necessidades são naturais e prementes, tanto mais as paixões aumentam e, o que é pior, o poder de satisfazê-las, de modo que, após longa prosperidade, depois de ter devorado muitos tesouros e desolado muitos homens, meu herói acabará por arruinar tudo até que seja o único senhor do universo. Esse é, abreviadamente, o quadro moral senão da vida humana, pelo menos das pretensões secretas do coração de todo o homem civilizado.

Comparem sem preconceitos o estado do homem civilizado com todo o homem selvagem e investiguem, se puderem, como além de sua maldade, suas necessidades e suas misérias, o primeiro abriu novas portas à dor e à morte. Se considerarem os sofrimentos do espírito que nos consomem, as paixões violentas que nos esgotam e nos desolam, os trabalhos excessivos de que os pobres estão sobrecarregados, a moleza ainda mais perigosa à qual os ricos se abandonam, uns morrendo por necessidade e outros por seus excessos; se pensarem nas monstruosas misturas de alimentos, em sua perniciosa condimentação, nos alimentos avariados, nas drogas falsificadas, nas velhacarias daqueles que as vendem, nos erros daqueles que as administram, no veneno do vasilhame no qual são preparadas; se prestarem atenção nas moléstias epidêmicas oriundas da péssima atmosfera reinante entre multidões de seres humanos reunidos, naquelas que ocasionam nossa maneira delicada de viver, as passagens alternadas de nossas casas para o ar livre, o uso de roupas vestidas ou despidas sem precaução e todos os cuidados que nossa sensualidade excessiva transformou em hábitos necessários e cuja negligência ou privação nos custa a seguir a vida ou a saúde; se levarem em consideração os incêndios e os terremotos que, consumindo ou aniquilando cidades inteiras, fazem morrer aos milhares seus habitantes; numa palavra, se reunirem os perigos que todas essas causas acumulam continuamente sobre nossas cabeças, haverão de perceber como a natureza nos faz pagar caro o desprezo que temos dado a suas lições.

Não repetirei aqui o que já disse da guerra em outro local, mas gostaria que as pessoas instruídas quisessem ou ousassem dar ao público os detalhes dos horrores cometidos nos exércitos pelos encarregados dos víveres e dos hospitais. Veríamos que suas manobras, não muito secretas, pelas quais os mais brilhantes exércitos se fundem em menos do que nada fazem morrer mais soldados do que os ceifam as armas inimigas. É um cálculo ainda não menos espantoso aquele dos homens que o mar engole todos os anos, pela fome, pelo escorbuto, pelos piratas, pelo fogo, pelos naufrágios. É claro que também é preciso assinalar por conta da propriedade estabelecida e, por conseguinte, da sociedade, os assassinatos, os envenenamentos, os roubos avultados, as próprias punições desses crimes, punições necessárias para prevenir maiores males, mas que, pelo assassinato de um homem, custando à vida a dois ou mais, não deixam de dobrar realmente a perda da espécie humana.

Quantos meios vergonhosos de impedir o nascimento dos homens e de enganar a natureza: seja por esse gosto brutal ou depravado que insulta sua mais encantadora obra, gosto que os selvagens e os animais jamais conheceram e que não surgiu nos países politizados senão por uma imaginação corrompida; seja por meio de abortos secretos, dignos frutos da devassidão e da honra manchada; seja pela exposição ou pelo assassinato de uma multidão de crianças, vítimas da miséria dos pais ou da vergonha bárbara das mães; seja, enfim, pela mutilação desses infelizes, dos quais uma parte da existência e toda a posteridade são sacrificadas a inúteis canções ou, o que é pior ainda, ao brutal ciúme de alguns homens, mutilação que, nesse último caso, ultraja duplamente a natureza, tanto pelo tratamento que recebem aqueles que a suportam quanto pelo uso a que são destinados!

Não há, porém, milhares de casos mais freqüentes e mais perigosos ainda, em que os direitos paternos ofendem abertamente a humanidade? Quantos talentos enterrados e inclinações forçadas pela imprudente violência dos pais! Quantos homens ter-se-iam distinguido num estado apropriado, mas que morrem infelizes e desonrados em outro estado para o qual não tinham nenhuma aptidão! Quantos casamentos felizes mas, desiguais, foram rompidos ou perturbados e quantas esposas castas desonradas, por essa ordem de condições sempre em contradição com aquela da natureza! Quantas outras uniões estranhas formadas pelo interesse e desaprovadas pelo amor e pela razão! Quantos esposos honestos e virtuosos se proporcionam mutuamente suplícios por terem escolhido mal! Quantas jovens e infelizes vítimas da avareza dos pais mergulham no vício ou passam seus tristes dias em lágrimas e gemendo dentro desses laços indissolúveis que o coração repele e só o ouro formou! Felizes aqueles cujo coragem e virtude os arrebatam à vida, antes que uma violência bárbara os force a passar ao crime ou ao desespero! Perdoem-me, pai e mãe para sempre deploráveis, com pesar aumento suas dores, mas poderiam servir de exemplo eterno e terrível a quem quer que ouse, em nome mesmo da natureza, violar o mais sagrado de seus direitos!

Se não falei senão desses nós mal formados que são obra de nossa política, pensa-se que aqueles a que o amor e a simpatia presidiram sejam isentos de inconvenientes? E que poderia acontecer se eu me decidisse em mostrar a espécie humana atacada em sua própria fonte e até no mais sagrado de todos os laços, em que não se ousasse mais escutar a natureza senão depois de haver consultado a sorte e em que a desordem civil, confundindo as virtudes e os vícios, a continência se tornasse uma precaução criminosa e a recusa de dar a vida a seu semelhante um ato de humanidade? Sem rasgar, porém, o véu que cobre tantos horrores, contentemo-nos em indicar o mal ao qual outros devem trazer remédio.

Que se acrescente a tudo isso essa quantidade de ofícios malsãos que abreviam os dias e destroem o temperamento, como os trabalhos das minas, as diversas preparações dos metais, dos minerais, principalmente do chumbo, do cobre, do mercúrio, do cobalto, do arsênico, do rosalgar; esses outros ofícios perigosos que todos os dias custam a vida de uma porção de operários, uns entalhadores, outros carpinteiros, outros pedreiros, outros trabalhadores de pedreira; que se reúnam, repito, todos esses objetos, e se poderão ver, no estabelecimento e na perfeição das sociedades, as razões da diminuição da espécie, observada por mais de um filósofo.

O luxo, impossível de prevenir entre homens ávidos de suas próprias comodidades e da consideração dos outros, completa logo o mal que as sociedades começaram e, sob o pretexto de fazer viver os pobres, o que não era preciso, empobrece todo o resto e despovoa o estado, cedo ou tarde.

O luxo é um remédio muito pior do que o mal que pretende curar, ou melhor, é ele mesmo o pior de todos os males, em qualquer estado, grande ou pequeno, e que, para nutrir multidões de criados e de miseráveis que fez, oprime e arruína o trabalhador e o cidadão, como esses ventos escaldantes do sul que, cobrindo as ervas e verduras de insetos devoradores, tiram a subsistência dos animais úteis e levam a fome e a morte a todos os lugares em que se fazem sentir.

Da sociedade e do luxo que ela gera, surgem as artes liberais e mecânicas, o comércio, as letras e todas essas inutilidades que fazem florescer a indústria, enriquecem e arruínam os Estados. A razão desse enfraquecimento é muito simples. É fácil ver que, por sua natureza, a agricultura deve ser a menos lucrativa de todas as artes porque, sendo seu produto de uso mais indispensável para todos os homens, o preço deve ser proporcional às possibilidades dos mais pobres. Do mesmo princípio pode-se tirar a regra de que, em geral, as artes são lucrativas na razão inversa de sua utilidade e de que as mais necessárias devem finalmente tornar-se as mais negligenciadas. Por aí se vê o que se deve pensar das verdadeiras vantagens da indústria e do efeito real que resulta de seus progressos.

Essas são as causas sensíveis de todas as misérias em que a opulência precipita, enfim, as nações mais admiradas. À medida que a indústria e as artes se estendem e florescem, o cultivador desprezado, carregado de impostos necessários á manutenção do luxo e condenado a passar a vida entre trabalho e a fome, abandona o campo para ir procurar na cidade o pão que devia levar para lá. Quanto mais as capitais impressionam de admiração os olhos estúpidos do povo, tanto mais seria preciso lastimar o abandono dos campos, as terras incultas e as grandes estradas inundadas de cidadãos infelizes, transformados em mendigos ou ladrões, destinados há um dia acabarem sua miséria pelos caminhos ou sobre um monte de estrume. É assim que o Estado se enriquece por um lado e se enfraquece e despovoa por outro e que as mais poderosas monarquias, após muitos trabalhos para se tornarem opulentas e desertas, acabam por se tornar presa de nações pobres que sucumbem à funesta tentação de invadi-las e que, por seu turno, se enriquecem e se enfraquecem até que elas mesma sejam invadidas e destruídas por outras.

Que se dignem explicar-nos o que teria podido produzir essas nuvens de bárbaros que, durante tantos séculos, inundaram a Europa, a Ásia e a África. Teria sido à industria de suas artes, à sabedoria de sua leis, à excelência de sua política, que deviam essa prodigiosa população? Que nossos sábios nos digam porque, longe de multiplicar até esse ponto, esse homens ferozes e brutais, sem luzes, sem freio, sem educação não nos expliquem como esses miseráveis tiveram somente a ousadia de olhar na cara de tão hábeis pessoas como somos, com tão bela disciplina militar, tão belos códigos e tão sábias leis. Enfim, porque, desde que a sociedade se aperfeiçoou nos países do norte e depois que se teve tanto trabalho para ensinar aos homens seus deveres mútuos e a arte de viver de modo agradável e pacífico em conjunto, não se vê mais nada sair de semelhante a essas multidões de homens que produziam outrora. Receio muito que alguém se lembre, por fim, de me responder que todas essas grandes coisas, a saber, as artes, as ciências e as leis, foram muito sabiamente inventadas pelos homens como uma peste salutar para prevenir a excessiva multiplicação da espécie, com medo de que este mundo, que nos é destinado, acabasse por se tornar muito pequeno para seus habitantes.

Pois então, seria necessário destruir as sociedades, aniquilar o teu e o meu e voltar a viver nas florestas com os ursos? Conseqüência essa bem ao estilo de meus adversários, que prefiro prevenir a lhes deixar a vergonha de ratificá-la. Vocês, para quem a voz celestial não se fez ouvir e que não reconhecem para sua espécie outro destino senão o de acabar em paz esta curta vida; vocês, que podem deixar no meio das cidades suas funestas aquisições, seus espíritos inquietos, seus corações corrompidos e seus desejos desenfreados, retomem, pois que depende de vocês, sua antiga e primeira inocência; vão para os bosques perder a vista e a memória dos crimes de seus contemporâneos e não receiem de aviltar sua espécie, renunciando a suas luzes para renunciar a seus vícios.

Quanto aos homens semelhantes a mim, cujas paixões destruíram para sempre a simplicidade original, que não podem mais nutrir-se de ervas e de sementes, nem passar sem leis e sem chefes; aqueles que foram honrados em seu primeiro pai com lições sobrenaturais; aqueles que hão de ver, na intenção de dar primeiro às ações humanas uma moralidade que não tivesse adquirido de há muito, a razão de um preceito indiferente por si mesmo e inexplicável em qualquer outro sistema; aqueles, numa palavra, que estão convencidos de que a voz divina chamou todo o gênero humano para as luzes e para a felicidade das inteligências celestiais, todos esses tratarão de merecer, pelo exercício das virtudes que se obrigam a praticar aprendendo a conhecê-las, o prêmio eterno que devem esperar; respeitarão os sagrados laços das sociedades, de que são membros; amarão seus semelhantes e os servirão com toda a sua força; obedecerão escrupulosamente às leis e aos homens que são seus autores e ministros; honrarão sobretudo os bons e sábios príncipes que saberão prevenir, curar ou dissimular essa multidão de abusos e de males sempre prontos a nos acabrunhar; animarão o zelo desses chefes dignos, mostrando-lhes sem temor e sem adulação a grandeza de sua tarefa e o rigor de seu dever; mas não desprezarão menos uma constituição que não se pode manter senão com o auxílio de tanta gente respeitável que em geral se deseja mais do que se obtém e da qual, apesar de tantos esforços, nascem sempre mais calamidades reais do que vantagens.


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Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de
Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos,
depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território
ocupado por aqueles índios. Faz mais de um século e meio. Mas as palavras do
cacique tem uma incrível atualidade.
CARTA DO CACIQUE Seattle, 1855.


"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.

Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.

Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.

Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.

Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.

Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos que esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe.

Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele.

Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."

Fonte deste texto -

http://www.culturabrasil.org/seattle1.htm



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Este é
um daqueles textos de autor desconhecido, que por conta das verdades que
apresenta encontra fácil divulgação. Ao final cito a fonte, através da qual ficamos
sabendo que a personagem principal do texto, não existe, embora o enredo, seja
sim, verdadeiro.

A Verdadeira Dívida

Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a America há 40 mil anos, para encontrar os que a "encontraram" só há 500 anos. O irmão europeu da aduana me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento, com juros, de uma dívida contraída por um Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento.

Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no Arquivo das Indias que, somente entre os anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Terá sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao Sétimo Mandamento! Teria sido espolição? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão. Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a atual civilização européia se devem à inundação de metais preciosos retirados das Américas!

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de outros empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas indenização por perdas e danos. Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva. Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALLTEZUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho diário e outras conquistas da civilização.

Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, poderemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo desses fundos? Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em Terceiros Reichs e outras formas de extermínio mútuo, sem um outro destino a não ser terminar ocupados pelas tropas estrangeira da OTAN, como no Panamá, mas sem Canal. No aspecto financeiro foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros, quanto independerem das rendas líquidas, as matérias-primas e a energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.

Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar, e nos obriga a reclamar-lhes, para o seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que nao nos rebaixaremos a cobrar, de nossos irmaos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e ate 30% de juros que os irmãos europeus cobram aos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro fixo de 10%, acumulado apenas durante os ultimos 300 anos, com 200 anos de graça.

Sobre esta base, e aplicando a formula européia de juros compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potencia de 300, isso quer dizer um numero para cuja expressão total seriam precisos mais de 300 cifras, e, que supera amplamente o peso total do planeta Terra. Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam calculados em sangue?

Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para pagar esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto fracasso financeiro e a demencial irracionalidade dos conceitos capitalistas. Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios americanos. Porém exigimos a assinatura de uma carta de intenções que discipline aos povos devedores do Velho Continente e que os obrigue a cumpri-la, sob pena de uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permita entregar suas terras, como primeira prestação dessa dívida histórica.

Leia também - Dúvidas sobre a Verdadeira Dívida.


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Carta Testamento
Getúlio Vargas
Rio de
Janeiro, 23/08/54



Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário-mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero.

Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.
Assumi o Governo dentro da aspiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Na declaração de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater a vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto, O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.
...


Leia também "Coisas mais reais".

2 comentários:

Andre disse...

Nossa cada dia que eu passo aqui, me supreendo com a beleza que está seu blog muito bonito, espetacular e muito criativo, por isso que estou sempre por aqui e vou voltar sempre.

Lilian de Almeida disse...
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